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NR Channel – #12



Compostagem como experiência investigativa

Jairo Rosenhek

A juventude que protesta há cerca de um ano, às sextas-feiras, em defesa do meio ambiente, vem cobrando a geração adulta por negligência em relação aos constantes desastres ambientais: mudanças climáticas, destruição de florestas, morte de barreiras de corais, extinção de espécies em ritmo recorde, ilhas de lixo no oceano.

Alguns de nós (adultos) sentem empatia por este pedido de mudança de comportamento. Já outros, acham que a cobrança da geração mais nova é injusta.

Será que já estamos fazendo o suficiente? Ou será que podemos melhorar nossas ações individuais?

Enxergo neste debate uma excelente oportunidade para que adultos e crianças construam juntos um olhar crítico, através de experiências investigativas: fazer perguntas e buscar respostas para situações do dia-a-dia. Há diversos temas a serem explorados e certamente algum que interesse mutuamente pais e filhos!

Como exemplo, gostaria de propor um exercício de questionamento em relação ao nosso lixo doméstico. Aquele saco que damos um nó, colocamos para fora da porta de casa e vamos dormir com a consciência tranquila!

Mas será que enquanto dormimos, o nosso resíduo coletado segue um caminho correto? Ele é gerido da melhor maneira? Precisamos cobrar os gestores públicos por melhores soluções? O material reciclável que separo é 100% reaproveitado? Será que algum lixo que produzi já foi parar no mar?

Do total de lixo que geramos diariamente, a maior parcela (55% em peso) é do material orgânico (preparo de alimentos e sobras de prato) e representa um grande desafio: pesado para transportar, atrai moscas e vetores, gera mal odor e chorume.

É com esta relevância, que nos últimos anos ativistas, empreendedores e gestores públicos de grandes cidades estão dando espaço para uma tecnologia ancestral: a compostagem, processo natural que transforma restos orgânicos em material rico para os solos.

A relação do homem com a compostagem é antiga e com o surgimento das grandes cidades passou a ser encarada como tecnologia. No Império Romano, o sistema de aquedutos lavava as fossas e latrinas, acumulando os resíduos num manancial que, quando saturava, era ‘encerrado’ e o esgoto direcionado a novo local. Após alguns anos, os romanos perceberam que as plantas que brotavam espontaneamente no manancial encerrado cresciam com maior vigor e quantidade de flores e frutos. Assim, o material residual passou a ser aplicado nos campos agrícolas.

Séculos mais tarde, no auge da Guerra Fria, o governo de Mao Tse Tung utilizou a técnica de biodigestão de resíduos orgânicos como estratégia de defesa. Sob o risco de ataque estrangeiro que comprometesse o fornecimento de eletricidade pelo país, o Partido Comunista instalou milhares de biodigestores na área rural para fornecer energia alternativa às residências chinesas. Os biodigestores produzem gás metano, similar ao gás encanado que usamos em nossas cozinhas modernas.

Atualmente, nos países desenvolvidos, a compostagem é vista com alto potencial pelo mercado agrícola. Estudos científicos provam a importância da aplicação do composto orgânico em solos e campos de cultivo, promovendo atividade microbiológica.

Numa colher de chá de composto orgânico, há 1 bilhão de bactérias benéficas, 200 metros de fungo hyphae (se organizados linearmente), 30 mil protozoários e 150 nematóides, um incrível berço de vida! Para ter ideia da relevância que a microbiologia ganhou na agricultura, a Indigo Agriculture, empresa com menos de 5 anos, sediada em Boston, tem valor estimado de mercado em US$ 3,6 bilhões.

No Brasil, a atividade da compostagem ainda é tímida. Na gestão dos resíduos, impera a cultura de envio para aterros sanitários (ou lixões) e a legislação dificulta o tratamento via compostagem empresarial. No campo agrícola, o MAPA (Ministério da Agricultura) demora anos para aprovar um produto microbiológico, já no caso de fertilizantes químicos o registro ocorre em poucas semanas.

Mas mesmo com estas dificuldades, alguns casos vêm surgindo com destaque. Em setembro de 2019, a câmara municipal de Florianópolis aprovou lei que obriga todas Pessoas Jurídicas da ilha a encaminhar o resíduo orgânico para compostagem. A Lei ainda precisa ser regulamentada.

Em São Paulo, a Prefeitura já opera 5 pátios de compostagem para os resíduos orgânicos de feiras de rua, que tratam 2,8 mil toneladas de resíduo orgânico por ano. A meta do Governo Bruno Covas é terminar a gestão com 20 pátios de compostagem em operação e tratar 100% dos resíduos de feiras de rua e mercados municipais.

Já em relação à proposta deste texto, a experiência investigativa pode ser conduzida em processos de menor escala. É bastante acessível fazer fora de casa, há muitas praças públicas que voluntários e ativistas instalam sistema de compostagem e horta comunitária. Qualquer pessoa é livre para levar seu resíduo e acompanhar o processo de degradação e transformação em composto orgânico. Com sorte, ainda conhece algum ‘composteiro’ experiente manuseando o sistema e transmitindo conhecimentos.

Para quem deseja uma experiência mais profunda, a dica é fazer compostagem dentro de casa. Há algumas empresas que comercializam composteiras domésticas e há diversos vídeos na internet com tutoriais para a montagem do próprio sistema doméstico (por exemplo, com potes de sorvete empilhados).

Acompanhar um processo de compostagem é muito enriquecedor, também transforma a relação que enxergamos nossos resíduos. Fica meu convite para jovens e adultos participarem deste movimento!

Jairo Rosenhek, empreendedor do Jardim Bonito, adubo líquido produzido a partir da
compostagem de resíduos do comércio hortifruti, graduado em Economia pela FGV-EESP, ex-acampante, monitor e assistente do NR Acampamentos.


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