Por Kito Vivolo
CPO NR | CEO NR Intercâmbio
Durante muito tempo, a educação foi pensada como um processo relativamente previsível. Conteúdos organizados, respostas certas, avaliações que medem o quanto o aluno conseguiu memorizar ou aplicar aquilo que foi ensinado.
Esse modelo trouxe avanços importantes. Mas o mundo que os jovens encontram hoje é muito mais complexo, diverso e imprevisível do que aquele para o qual a escola tradicional foi desenhada.
É justamente aí que entram as experiências multiculturais e os programas de intercâmbio para crianças e jovens.
A experiência como resposta a um mundo mais complexo
Entre os 10 e os 17 anos, o cérebro vive uma fase muito intensa de desenvolvimento. É um período de construção de identidade, ampliação do repertório social e formação da visão de mundo. Experiências vividas nessa etapa costumam deixar marcas profundas.
Conviver com pessoas de outras culturas, outros idiomas e outras formas de pensar não é apenas interessante. É formador.

A convivência com diferentes culturas amplia a forma como jovens percebem o mundo e a si mesmos.
O que a ciência diz sobre o impacto da experiência na aprendizagem
Experiência e cultura: como o ambiente molda a forma de pensar
O psicólogo cultural Richard Nisbett, professor da Universidade de Michigan e autor do livro The Geography of Thought, mostra como o ambiente cultural influencia diretamente a maneira como pensamos e interpretamos o mundo. Quando um jovem entra em contato com outras culturas, ele não está apenas aprendendo costumes diferentes. Ele está ampliando sua própria forma de pensar.
Aprendizagem experiencial: por que viver é diferente de ouvir
Algo semelhante aparece na teoria da aprendizagem experiencial de David Kolb, que mostra que aprendemos mais profundamente quando passamos por experiências concretas e refletimos sobre elas. Ou seja, aprender não acontece apenas quando alguém explica algo. Muitas vezes acontece quando vivemos algo.
E poucas experiências são tão completas nesse sentido quanto um intercâmbio.
Um jovem que vive uma experiência internacional precisa lidar com situações novas o tempo todo. Desde se comunicar em outro idioma até interpretar comportamentos culturais diferentes. Precisa observar mais, escutar mais e resolver pequenos desafios do cotidiano.
Isso ativa exatamente algumas das competências que a vida adulta mais exige: autonomia, empatia, flexibilidade e capacidade de adaptação.
Por que a experiência ainda ocupa pouco espaço na educação?
E então surge uma pergunta importante.
Se sabemos que convivência, diversidade cultural e resolução de problemas reais são tão formadores, por que essas experiências ainda ocupam um espaço tão pequeno na jornada educacional de muitos jovens?
Parte da resposta está no próprio modelo educacional que herdamos. Durante décadas, a escola foi estruturada para transmitir conhecimento. Experiências fora da sala de aula quase sempre ficaram em segundo plano.
Mas talvez essa lógica esteja começando a mudar.
A educação tradicional ensina respostas. Experiências educacionais vivenciadas ensinam perguntas.
Quando um jovem entra em contato com outras culturas, ele começa a questionar coisas que antes pareciam óbvias. Por que as pessoas pensam diferente? Por que algumas sociedades valorizam determinadas coisas mais do que outras? Por que certos comportamentos são naturais em um lugar e estranhos em outro?
Essas perguntas são o começo do pensamento crítico.
Experiência presencial: por que ainda é insubstituível
Em um mundo onde quase tudo pode ser acessado digitalmente, outra pergunta aparece com frequência: se podemos assistir vídeos, conversar online e visitar virtualmente qualquer lugar do planeta, por que algumas experiências presenciais continuam sendo tão transformadoras?
Porque viver algo não é a mesma coisa que observar algo.
Nenhuma tela consegue reproduzir a experiência de estar em um ambiente desconhecido, ouvindo outro idioma, percebendo nuances culturais e precisando se adaptar em tempo real. A experiência presencial envolve emoção, improviso, interação humana. E é justamente essa combinação que transforma experiências em aprendizado duradouro.
Autonomia: o que só a experiência pode ensinar
Talvez por isso a última pergunta seja a mais importante.
Será que algumas das competências mais importantes da vida adulta surgem justamente quando ninguém está ali para orientar o próximo passo?
Muitas vezes, sim.
É quando o jovem precisa decidir sozinho como agir que ele começa a construir confiança. É quando precisa encontrar soluções que percebe que é capaz. É quando convive com o diferente que aprende a respeitar melhor o mundo.
Experiência como formação para a vida
No fundo, experiências multiculturais e programas de intercâmbio não servem apenas para ensinar idiomas ou mostrar novos lugares.
Eles ajudam a formar pessoas mais curiosas, mais abertas e mais preparadas para viver em um mundo diverso.
Para quem quiser se aprofundar mais nesse tema, vale acompanhar o episódio do podcast Entre uma coisa e outra, no qual conversei com Daniella Vilella, Head da Red Balloon Brasil, sobre o papel das experiências internacionais na formação de crianças e jovens.
Porque, no fim das contas, aprender sobre o mundo é também uma forma poderosa de aprender sobre nós mesmos.



